WiFi Ralph | Uma animação sobre a toxicidade da internet

Lançado em 2013 pela Walt Disney Animation Studios, Detona Ralph foi um longa de animação repleto de referências a jogos antigos e que fez relativo sucesso, arrecadando quase meio bilhão de dólares em bilheteria. A animação faz parte de uma nova leva de propriedades intelectuais da Disney, que, como qualquer empresa, precisa de novidades para se manter relevante no mercado.
Ah, como as pessoas são inocentes ao ver a internet pela primeira vez - Walt Disney/Reprodução
Como propriedade intelectual que deu certo e poderia virar uma franquia, obviamente Detona Ralph teve uma continuação seis anos depois, e trata-se de WiFi Ralph, lançado neste janeiro de 2019. O primeiro trata da jornada do personagem principal, Ralph (do fictício game Fix It, Felix Jr), que visa deixar de ser vilão para se transformar em herói. No decorrer da aventura ele conhece Vanellope von Schweetz, protagonista do game Sugar Rush, e ambos acabam virando grandes amigos. A continuação começa com um breve resumo da história do anterior e retoma do ponto onde Ralph e Vanellope continuam amicíssimos. Desta vez, a dupla deixa a loja de fliperamas de Litwak e vão em busca de uma peça para consertar e salvar o arcade de Sugar Rush, para que ele não seja desligado em definitivo. E aí começa uma das sátiras mais geniais que este redator já viu.

Em Detona Ralph, tudo que é relacionados aos clássicos de fliperamas dos anos 1970 e 1980 acaba virando piada aqui ou ali e até mesmo um pequeno easter egg. Já a sequência usa uma máscara de filme sobre a importância da amizade para satirizar a internet atual. E como isso é apresentado e desenvolvido? É o que vamos te contar nos próximos parágrafos - sim, com spoilers

Como citei acima, a premissa do filme é de que Ralph e Vanellope vão à internet para comprar uma peça sobressalente e consertar a máquina de Sugar Rush. O primeiro destino deles é uma praça onde fica um buscador que dá as respostas para tudo. A partir dali a dupla principal é levada ao eBay, site no qual está a bendita peça. Após participar de um leilão, o ex-vilão descobre que acabou dando um lance de mais de 27 mil trumps na peça, e não faz ideia de onde conseguir essa grana toda. A primeira tentativa de levantar o dinheiro ocorre dentro de um jogo, Corrida do Caos, onde a dupla precisa conseguir um carro super raro do game para vendê-lo e conquistar uma bela quantidade de dólares. É a primeira referência a um submercado da internet, o de compra e venda de itens cosméticos em jogos, as chamadas micro-transações.

Em dado momento a ideia de conseguir o tal carro é descartada, e uma personagem apresenta a Ralph e Vanellope uma ~maneira fácil~ de conseguir dinheiro na internet, que é gravar vídeos sem conteúdo algum para publicação na plataforma fictícia BuzzTube. Aí entra uma boa parte do filme que é focada na crítica ao conteúdo - ou à falta de qualidade dele - na internet. Ralph ganha rios de dinheiro ao publicar vídeos cada vez mais idiotas, seja fazendo piadas ruins com abelhas, memes sem graça, receitas que dão errado e qualquer outro tipo de vídeo que viralize. Há até uma cena bem bacana nessa parte, em um escritório, onde um personagem está cansado de ver mais do mesmo na internet, mas acaba se interessando pelas publicações do protagonista, que no fim das contas são as mesmas piadas que ele havia visto anteriormente, mas apresentadas por outra pessoa.
A animação conta com aparições de diversos personagens de clássicos da Disney - Walt Disney/Reprodução
Claro que os rios de dinheiro não são fáceis de conseguir. Ralph espalha links em toda a internet para atrair a audiência, que é cada vez mais sedenta por novidades. Além disso, a grande quantidade de likes recebidos por ele gera uma renda enorme à plataforma que mantém os vídeos, mas um pequeno percentual dessa renda volta para o protagonista. É justamente o que acontece na vida real, não? Outro momento interessante ocorre em uma cena na qual Ralph acessa a seção de comentários da internet, e se depara com o ódio exacerbado e sem motivo dos seres humanos. A dona do BuzzTube, que atende pelo nome de Yesss, explica ao ex-vilão que a regra número um da internet é nunca, em hipótese alguma, ler a caixa de comentários de qualquer conteúdo. "O problema não está em você, Ralph, mas sim neles" dispara a personagem, referindo-se diretamente à crueldade com que os internautas tratam tudo e todos - e o exagero com que reagem a qualquer pequena polêmica também.

Claro, o plot principal não fica apenas nisso, e a dupla de personagens principais consegue resolver a treta inicial toda, com um fim falando sobre o amadurecimento deles. Mas decidi me ater às referências de internet aqui por um motivo, pois acredito que a reflexão sobre a toxicidade online seja a principal mensagem da animação. Fica óbvio principalmente pelo nome do filme, que é WiFi Ralph, mas o long deixa algumas mensagens bem claras sobre tudo que ocorre na internet. Uma análise interessante a respeito disso foi feita por Helton Simões Gomes, no UOL, sob o título "WiFi Ralph" traz 10 lições e uma escorregada sobre a internet - a análise fala sobre alguns dos pontos que citei acima e vai além, tocando em questões como as bolhas existentes na web e também o papel dos algoritmos no posicionamento de conteúdo online.

Essa genialidade toda em satirizar a internet e apontar a toxicidade da convivência online tem um preço, no entanto. Para focar no ambiente web, WiFi Ralph deixa de lado toda a mitologia apresentada no primeiro filme (como a regra principal de um personagem não poder deixar seu jogo durante o horário de expediente, por exemplo), além de outros personagens que poderiam ser desenvolvidos um pouco mais ou ter alguns minutos a mais de tela. Ao mesmo tempo, a sensação que fica é de que a questão da internet poderia ter sido muito mais aprofundada e a animação deixa a desejar também nesse aspecto. WiFi Ralph poderia ter sido muito mais, porém talvez acabe tendo uma sequência que continue a abordar o que foi proposto no longa e também dê atenção ao universo criado pela franquia.

Comentários